Liderança deve transformar empresas, não apenas administrar problemas

Empresas podem crescer e, ao mesmo tempo, perder eficiência quando acumulam processos sem rever a própria estrutura. Essa foi uma das reflexões apresentadas por Nadim Habib, professor da Nova School of Business and Economics, durante a palestra “Liderança e novas capacidades para transformar o varejo” no Fórum Nacional da SA+, que ocorreu nos dias 7 e 8 de outubro na capital paulista. Para ele, o desafio das organizações é deixar de apenas administrar as operações e desenvolver a capacidade de transformar modelos de trabalho.

 

Habib observou que muitas companhias dominam o planejamento e o controle, mas encontram dificuldades para adaptar suas práticas às mudanças do mercado. A consequência é o aumento da complexidade, com mais tarefas e custos, sem garantia de melhores resultados.

 

“Estamos a chegando à conclusão que a maioria das nossas empresas sabe administrar muito bem, mas não sabem mudar. E o pior do que tudo isso, quando temos uma cultura de administração muito forte, nós aprendemos uma coisa horrível: mudar o suficiente para não mudar nada”,

O excesso de processos compromete a eficiência

 

Para ilustrar o problema, o professor contou que a universidade onde trabalha passou por uma expansão significativa, acompanhada pelo aumento das reuniões. Diante da falta de salas disponíveis, a instituição optou por desenvolver um sistema de agendamento, em vez de questionar se todos aqueles encontros eram necessários.

 

A situação exemplifica como empresas podem responder às dificuldades com novas ferramentas e procedimentos, sem eliminar a origem do problema. Na avaliação de Habib, essa dinâmica sobrecarrega as equipes e desvia recursos de atividades que poderiam contribuir mais diretamente para os resultados.

 

Ao descrever esse comportamento, ele destacou a tendência de acrescentar continuamente novas obrigações à rotina corporativa: “É mais um processo, mais um sistema, mais uma reunião, mais um trabalho, mais um relatório, mais um KPI, etc.”

 

A pandemia mostrou que as empresas podem mudar rapidamente

 

A crise sanitária foi outro exemplo usado por Habib para questionar a demora das organizações em rever seus modelos. O trabalho remoto e a digitalização, segundo ele, já faziam sentido antes da pandemia, mas ganharam espaço quando as circunstâncias tornaram a mudança inevitável.

 

O professor argumentou que as empresas não deveriam esperar uma crise para adotar medidas necessárias. Também ressaltou que a resistência dos funcionários não deve ser tratada como uma característica inevitável, pois a disposição para mudar depende, em parte, da clareza dos objetivos.

 

"Essa lição é fundamental porque a maior habilidade do ser humano, e especialmente de vocês, nossos colaboradores, é a capacidade de adaptação. O ser humano nasceu para mudar".

Na sequência, Habib explicou que cabe à liderança tornar as transformações compreensíveis para as equipes. Quando as pessoas entendem a finalidade de uma decisão, podem avaliar melhor sua importância e participar de sua implementação.

 

O tempo precisa gerar resultados

 

Outro eixo da palestra foi a produtividade. Para Habib, o tempo disponível dos profissionais deve ser tratado como um recurso estratégico, porque atividades pouco relevantes podem consumir horas de trabalho e reduzir a rentabilidade.

 

O professor defendeu que as empresas analisem não apenas quanto gastam ou vendem, mas também o valor gerado pelo trabalho realizado. A proposta é identificar tarefas que ocupam as equipes sem contribuir efetivamente para os objetivos do negócio.

 

“Mas qual é o recurso mais escasso? É o tempo. Mesmo quando as pessoas dizem ‘pessoas’, não se esqueçam quando vocês contratam um ser humano hoje em dia vocês estão alugando 8 horas por dia durante uma média de 227 dias por ano, que dá 1816 horas.”

 

Essa perspectiva exige que os gestores reconsiderem rotinas marcadas por reuniões frequentes, relatórios redundantes e controles excessivos. Em vez de premiar apenas o volume de atividades, a gestão deve observar os resultados produzidos e o aproveitamento dos recursos disponíveis.

 

O professor ressaltou que tentar atender a todos os clientes da mesma maneira pode dificultar o posicionamento de uma empresa. Definir prioridades implica reconhecer que diferentes públicos têm necessidades distintas e que nem sempre é possível conciliar preço baixo, descontos e qualidade em todas as situações.

 

Liderança exige preparar o futuro

 

Outro ponto levantado foi que gestores que resolvem continuamente os problemas da equipe podem acabar mantendo a dependência em relação a eles. O desafio é transformar a estrutura para evitar que as mesmas dificuldades se repitam.

 

Habib também defendeu que as organizações conciliem a entrega de resultados imediatos com a preparação para os próximos anos. Para isso, precisam alinhar estratégia, cultura e liderança, além de permitir que decisões sejam tomadas com agilidade e responsabilidade.